Pacis Augusteae e o renascimento do Mausoléu de Augusto

 

A segunda fase da restauração do monumento teve incío em março deste ano e conta com financiamentos público e privado

Passaram-se pouco mais de dois mil anos da morte do primeiro Imperador de Roma, Ottaviano Augusto (63 a.C- 14 d.C), e com o intuito de celebrar suas glórias – enquanto fundador do Império romano – e de preservar sua memória, inciou-se um projeto de valorização e “resgate” de seu antigo Mausoléu. Ao todo, um dos objetivos da prefeitura de Roma, juntamente com a Superintendência Capitolina, é modernizar o lugar sem comprometer a sua história e suas características originais. Pretende-se, de fato, chegar o mais perto possível do que era a grande tumba, considerada então uma obra- prima de seu tempo.

O projeto de restauração foi iniciado em 31 de outubro de 2016, com o financiamento da Superintendência, cujos trabalhos foram realizados na parte externa do Mausoléu. Já a segunda fase foi inaugurada em 31 de março e, desta vez, conta também com o patrocínio da Fundação TIM. Trata-se de uma etapa de intenso trabalho interno, que trará ao público um grandioso espaço arqueológico, com moderna iluminação, música de fundo, e projeção de painéis em 3D que apresentarão a vida do Imperador. Para completar o trabalho de modernização, serão dispostos sistemas anti- incêndio e câmeras de vigilância.

Mausoléu restaurado
A imagem representa a futura aparência do Mausoléu, quando será inaugurado em 2019. Foto: divulgação.
PROJETO

O anúncio do projeto foi feito no início deste mês pela prefeita de Roma, Virgínia Raggi, em parceria com o presidente da Fundação TIM – Telecom Itália – Giuseppe Recchi. O intuito é de que o momumento seja aberto em abril de 2019 e, dentro dos próximos dois anos, calcula-se que serão restaurados 13 mil metros quadrados de paredes, além de um grande processo de impermeabilização da superfície que deverá ser feito, e a instalação de milhares de metros de andaimes. Tudo para que se conserve perfeitamente o maior monumento funerário circular da antiguidade, que conta com 45 metros de altura e 87 metros de diâmetro.

Durante a inauguração, Raggi declarou que será “restituída à luz  uma obra-prima da antiga Roma, abandonada há anos. É preciso cuidar de suas riquezas, as quais nos têm apresentado as marcas do passado que queremos e devemos apresentar a todos os visitantes do mundo.”

METAMORFOSE HISTÓRICA

Por mais de setenta anos, o Mausoléu permaneceu “esquecido”, sem qualquer restauração. Durante seus dois mil anos de história, a enorme construção suportou diversas modificações de acordo com o período histórico.

Na idade Média, o monumento foi transformado em uma fortificação e residência para a nobre família italiana Colonna, sendo posteriormente destruída pelo papa Gregorio IX. O mausoléu, então, é reestruturado no século XVI, e nesse período passa a abrigar coleções antigas, como uma espécie de museu. Na parte externa é construído um jardim repleto de estátuas.

No século XVIII, é transformado em um anfiteatro, de propriedade privada. Ao longo dos anos 1700, permanece como um anfiteatro com espetáculos com animais e fogos de artifícios. Em meados de 1802, é construído um palco para apresentações de teatro, que seguem durante todo aquele século. Em fins de 1800, o Mausoléu fecha e só reabre por volta de 1907, quando passa a ser de propriedade da prefeitura de Roma, que realiza restauros e construção de novo palco para concertos e espetáculos públicos. O mausoléu passa a ser conhecido como Auditorium Augusteo.

Em 1937, a estrutura na qual eram realizados concertos e peças teatrais é demolida para que no local fosse construída a praça Augusto Imperador. Desde então, o monumento tem permanecido sem intervenções, até a presente data.

AUGUSTO E O MONUMENTO

Fazendo uma viagem no tempo, pode-se entender um pouco a importância e grandiosidade de Augusto:

Augusto
Estátua de Augusto Imperador, que se encontra nos Museus Vaticanos. Foto: divulgação.

Com a conquista do Egito e derrota de Marco Antônio na Batalha do Ácio[1], em 31 a.C, Ottaviano foi aclamado como um “herói” que pôs fim à guerra civil e levou Roma à estabilidade de governo. Diante dessa conquista, pelos seus méritos, passa a obter o respeito e a responsabilidade do governo de Roma e de suas fronteiras.

Desde que se tornou príncipe[2], em 27 a.C, ou que adquiriu autoridade perante aos magistrados e senadores de Roma, Ottaviano conhecia os limites de onde poderia chegar e utilizar seu novo papel de monarca: quis estabelecer uma harmonia em Roma. Posteriormente, Ottaviano Augusto soube implementar sua autoridade e poder, de modo a representar o soberano que deveria indicar a estrada para o bem do Estado, um líder pacífico que saberia e soube acabar com as guerras civis, e estabelecer a pax augustea (FREDIANI, 2016).  O título de Augusto lhe fora conferido pelos próprios senadores, pois reconheceram em seu governo o verdadeiro significado de gestão coletiva, a qual não os excluía do poder.

Augusto passa a governar com a força de sua autoridade, não somente de sua soberania entre os demais aristocratas, e após anos de expansão e de consolidação das fronteiras, soube criar um grande Império. No entanto, criou a figura do Imperador de um modo que os romanos pudessem aceitá-la (IBID).

Diante de seu poder e popularidade, a construção de um grande Mausoléu para si e seus familiares não seria apenas um detalhe, mas algo que representaria o complemento de todos os seus feitos. A ideia da construção de tal monumento já havia sido concebida logo que Augusto assumira o poder. Ele desejou que fosse construído um monumento o qual supõe-se que tenha sido inspirado no estilo estrusco – formato circular e repleto de adornos. Sugere-se igualmente que sua tumba seja uma inspiração da tumba de Alexandre, o Grande – situada em Alexandria, no Egito -,  ou do Mausoléu de Alicarnasso[3] – atual Bodrum, na Turquia.

O historiador grego Strabone (60 a.C – 24 d.C) descreve o momumento de Augusto como  “o mais belo Mausoléu, grande túmulo perto do rio, com uma base alta de pedra branca, coberto até o topo de árvores verdes; na parte superior, uma colossal estátua de bronze de Augusto…”[4]  Para adornar a entrada, possuía ainda dois grandes obeliscos originais, trazidos do Egito. Atualmente, esses obeliscos encontram-se na praça do Quirinale e praça Esquilino –  por trás da basílica de Santa Maria Maior.

A antiga construção está situada na região norte da zona chamada Campo de Marte, na praça Augusto Imperatore. O que se vê hoje do suntuoso Mausoléu é um curioso complexo antigo, fechado devido ao processo de restauro. Está rodeado por um largo muro no qual se pode admirar as figuras de Augusto – e dos que também foram alí seputados[5] -, e ler um pouco sobre sua  vida e sobre o grande projeto que se pretende completar nos próximos dois anos.

Pode interessar:  Il Mausoleo di Augusto.

FONTES:

 


[1] Guerra civil romana entre Ottaviano e Marco Antônio, que aconteceu no ano de 31 a.C. Augusto contava com o apoio naval do general Agrippa para derrotar os navios egípcios da rainha Cleóprata, então aliada de  Antônio.
[2] O principado foi como passou a ser conhecido o início do governo de Augusto. O título de príncipe seria uma cautela com relação aos senadores e magistrados, pois não aceitariam de imediato uma ditadura com um único governante vitalício. (FREDIANI, 2016. P. 272).
[3] Pertencente ao rei Mausolo – que deu nome ao estilo de tal monumento; sua construção foi ordenada por volta do ano 377 a.C. Considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Mausoléu possuía 40 metros de altura, era rodeado por colunas, e no topo erguia-se a estátua do rei. (disponível em http://www.studiarapido.it/mausoleo-di-alicarnasso-storia-foto-immagini/#.WRP_FmjyjIU)
[4]  “Il più bello Mausoleo, grande tumulo presso il fiume su alta base di pietra bianca, coperto sino alla sommità di alberi sempreverdi; sul vertice è il simulacro bronzeo di Augusto “. Escreveu o historiador grego Strabone (60 a.C – 24 d.C).
[5] Além das cinzas de Augusto, o Mausoléu abriga também os restos de sua irmã Ottavia e filho, sua esposa Lívia e filho, seu amigo Marco Agrippa, além dos Imperadores Tibério e Calígula.
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