O que revelam essas antigas cartas romanas

O interesse por antigas civilizações tem se mostrado um importante e constante contato com a atualidade. Supõe-se que ao se voltar periodicamente ao passado, tal conhecimento, além de revelar muitos costumes antigos – e até emoções sentidas na antiguidade – pode igualmente constatar que todos também são vividos odiernamente. Muito ao contrário do que se possa imaginar, nossas reações, nossas leis, nosso convívio social, em muito refletem uma herança dos povos antigos e, em se tratando do mundo ocidental, a influência romana é ainda maior. Com base nessa ideia, é considerável qualquer análise (comparativa) de determinados achados arqueológicos, de modo a investigar como as pessoas do mundo antigo encaravam situações do cotidiano e relacioná-las à maneira atual de agir.

Alguns dos achados trazidos aqui e que atestam a similaridade entre os mundos antigo e atual, são dois documentos ou cartas escritas entre os séculos I e III da Era Cristã, por romanos. Tratam-se de duas realidades distintas; dois territórios completamente separados, seja geográfico, seja cronologicamente. A questão econômica também pode ser considerada enquanto elemento que difere as duas situações dos autores das cartas: uma senhora supostamente muito rica, esposa de um comandante militar; um soldado de origem humilde e que, provavelmente sem muitas escolhas, recruta-se ao exército romano. Apesar das disparidades, ambas compactuam com a reflexão de como seria viver cada dia em um mundo aparentemente isolado, sem  moderna comunicação.

O CONVITE

A primeira carta, ou melhor, um antigo convite de aniversário  foi encontrado em 1973 , nas escavações feitas em um antigo Forte romano, em Vindolanda, na Inglaterra, e corresponde ao ano 100 d.C.

Esse documento chamou a atenção dos estudiosos, mais do que qualquer outro escrito encontrado na região. Trata-se do mais antigo documento –sobrevivido até hoje – escrito à mão por uma mulher romana, na Grã-Bretanha. A autora, de nome Cláudia Severa, era a mulher do comandante do Forte de Vindolana, e escrevia para sua irmã, chamada Lepidina. Cláudia a convidava, muito gentilmente, para festejarem juntas o seu aniversário. A presença da irmã seria de grande importância, ainda mais na realidade em que se encontravam: muito distantes uma da outra e, provavelmente, havia a sensação de não pertencimento em terra estrangeira, por parte de Cláudia, já que naquela época o forte era de construção recente, e viviam alí os primeiros romanos.

Abaixo segue a carta traduzida:

“Cláudia Severa a sua Lepidina, saudações. Este 11 de setembro, irmã, para o dia da celebração do meu aniversário, envio-te um caloroso convite para ter a certeza de que virás, assim farás melhor o meu dia, se eu sei que serás aqui presente. Envio as minhas saudações ao teu Cerialis. O meu Aelius e meu filho o saúdam. Espero-te, irmã. Saudações, irmã, minha mais querida alma, a quem desejo prosperidades. Para Sulpicia Lepidina, esposa de Cerialis, de Severa.”

 

carta de claudia severa
Tábua de madeira que contém os escritos de Cláudia Severa.                                                               Foto: British Museum/Art Resource, NY.

Alguns estudiosos afirmam que tal composição foi feita por outra pessoa, talvez um grande confidente, pois ressalta-se um tom de formalidade, ou um tanto “mecânico”. Porém, um pequeno trecho parece ter sido diretamente escrito por Cláudia: a saudação final em destaque. Essa carta evidencia a simplicidade e objetividade com que essa antiga mulher romana decidiu resolver o problema da saudade dos familiares. É um exemplo de um dos  primeiros escritos em latim feitos por uma mulher.

Não existem aqui conclusões a respeito desse convite: se Cláudia retornou à casa (supostamente em Roma) ou se, porventura, sua irmã a visitou. Porém, tendo sido encontrado na região do Forte, pode-se supor que ele jamais fora enviado.

ARTEFATOS DE VINDOLANDA

Quando estudiosos deram início aos trabalhos nesse sítio arqueológico, encontraram diversos fragmentos de tábuas cobertas de escritos romanos. Uma vez conservadas e decifradas, foi possível observar raros detalhes do cotidiano e como eram realizados os trabalhos naquele Forte. Demais documentos encontrados são sempre mensagens pessoais: algumas registram como era o relacionamento dos soldados com os escravos, ou com suas famílias, enquanto outras nos dão uma ideia de como supostamente era mantida a organização militar. Ainda foram encontradas listas de alimentos e de outros suprimentos para manter os soldados que alí permaneceram.[1] Dentre os alimentos contidos na lista estavam bacon, ostras e mel. A carta de um soldado, que fazia um pedido à família que lhe enviasse calçados e lençóis, também estava entre os escritos achados no forte.

Antigo Forte de Vindolanda
Ruínas do Forte. Hoje, um importante centro arqueológico para visitação. Foto: vindolanda.com
Tábuas de vindolanda
Em finas peças de madeira, ou tábuas como as da foto, eram escritas as muitas mensagens pessoais e listas de suprimentos. Foto: divulgação.
Sapatos romanos
Esses antigos sapatos romanos estão entre os artefatos encontrados no Forte. Foto: u3ahadrinswall.co.uk

Os primeiros romanos e seus soldados se estabeleceram na atual região da Grã-Bretanha entre os anos 70 e 85 d.C. Mais precisamente, em 79, iniciou-se a construção do Forte, por ordem do militar Giulio Agricola[2] (40 – 93 d.C), depois da conquista da Bretanha. Nessa região formaram-se comunidades e suas edificações seriam as primeiras das que se tornariam uma série de bases romanas no local.[3] Com o tempo, a paisagem foi completamente transformada e após cerca de trezentos anos de ocupação a região contava com não menos de nove fortificações romanas, deixando as marcas de um incrível tesouro arqueológico e legado cultural.

O pequeno convite, juntamente com outras tábuas de madeira, está exposto no Museu Britânico.

A SEGUNDA CARTA

A segunda carta ou documento achado corresponde a um frágil e extraordinário regristo, escrito em papiro, datado do século III – cerca do ano de 214. Foi encontrado no Egito, em 1899, na região da atual Umm el-Breigat –  fora de um templo do período romano, na antiga cidade de Tebtunis – pelas escavações de Bernard Grenfell e Arthur Hunt[4],cuja expedição arqueológica, além de ter encontrado a carta e uma série de antigos papiros, foi também responsável por encontrar uma coleção de pinturas e retratos egípcios em estilo romano, da época da conquista do Egito por Roma.

Tebtunis
A imagem mostra as ruínas de um antigo estabelecimento em Tebtunis. Foto: Roland Unger (2003)
Retratos de Faiyum
Alguns dos antigos retratos egípcios- romanos encontrados em Tebtunis, conhecidos como retratos de Fayum, devido à localização. Eram feitos em madeira e colocados sobre os sarcófagos para recordar seus defuntos. Sécs. I-IV d.C Foto: didatticarte.it
Faiyum
A região do oásis de Fayum era onde se situava a antiga Tebtunis, a Sudoeste do Delta do Nilo. Foto: divulgação.

Somente em 2011, todo o conteúdo da antiga carta ou papiro de Tebtunis foi traduzido pelo estudante de doutorado da Universidade Rice, Grant Adamson. O documento originalmente foi escrito em grego e para a sua tradução foram utilizadas técnicas em infravermelho. Todo o estudo dessa tradução pode ser encontrado no Bulletin of American Society of Papyrologists.

MENSAGEM DE UM LEGIONÁRIO DO ANTIGO EGITO

A partir das análises, tornou-se visível a mensagem de um legionário – cidadão romano – chamado Aurelius Polion, que almejava voltar para casa e rever seus familiares, pois estava muito longe de seu lugar de origem. Mais uma vez aqui, pode-se contemplar o tema do saudosismo pela família, algo corriqueiro nas longínquas pronvíncias romanas.

Possivelmente, Aurelius Polion foi voluntário e recrutado para tonar-se um membro da Legião romana  que tinha base na antiga Panônia, ao norte da Itália, no atual território da Hungria. O problema é que o soldado era originário de Tebtunis, província egípcia que pertencia à Roma – onde vivia sua família –  e, portanto, foi transferido a milhares de quilômetros de casa. Esse transferimento era comum na realidade de um soldado legionário, uma vez que era preciso transferir-se constantemente para manter a segurança das fronteiras romanas, papel que caberia a qualquer Legião, seja qual fosse seu território base.[5]  De acordo com a carta, a Legião da qual Polion fazia parte era a Legio II Adiutrix[6] ou Segunda Legião de Auxílio, estabelecida na Panônia inferior, governada por uma autoridade consular. Esta autoridade era a quem o soldado faria um pedido de licença militar para se deslocar até sua terra, para a família. Mas antes, ele escreve diversas cartas – um total de seis, como ele mesmo afirma em uma delas– como advertência aos parentes.

Panônia Inferior
A antiga Panônia Inferior, região onde Aurelius servia, cerca de 4000 quilômetros distante de Tebtunis. Foto: divulgação.

As dificuldades constantes desse soldado podem ser confirmadas em sua carta, em que não apenas sentia a nostalgia do seu lar, como também criticava a atitude de sua família no Egito, por aparentemente não ter mostrado o mesmo interesse em querer saber notícias suas. Basicamente, é uma mensagem endereçada a sua mãe, irmã e irmão: para que compreendessem melhor a mensagem, a carta foi escrita em grego – com certa dificuldade- pois Tebtunis havia sido de ocupação grega, antes da dominação romana. A carta possui ainda muita influência do latim – até o uso de letras em latim ao invés de grego – sendo provável que Polion houvesse o costume de escrever ou de expressar-se cotidianamente nessa língua. Portanto, de acordo com o estudante Adamson, além do latim, o soldado saberia falar egípcio e grego.

A carta inicia com a saudação:

“Aurelius Polion, soldado da Legio II Adiutrix, a seu irmão Heron, a sua irmã Ploutou, à mãe Seinouphis, padeira e senhora (?), tantas caras saudações.”

Sua demonstração de afeto pela família é clara, assim como a grande angústia e o desespero em querer voltar para casa, apesar de não ter ideia de como estavam os seus, ou se ainda possuíam qualquer estima por ele.

“Rezo noite e dia para que gozem de boa saúde, e presto sempre homenagem a todos os deuses por vocês. Eu não paro de escrever a vocês, mas vocês nunca pensam em mim. Mas eu faço a minha parte escrevendo sempre e nunca deixo de estar próximo a vocês, com a mente e o coração. Ainda assim, não me escrevem nunca para me contar sobre como estão de saúde, e como estão vivendo. Estou preocupado por vocês, porque apesar de receberem frequentemente minhas cartas, não me respondem nunca, assim não posso saber como vocês (?) enquanto estava em Panônia, eu enviei as cartas, mas vocês me trataram como um estranho (?) fui embora (?) e vocês estão felizes que (?) o exército. Eu não (?) vocês (?) pelo exército, mas eu (?) fui embora de casa.”

Com essas palavras, imagina-se a profunda tristeza que sentia Aurelius Polion. É como se houvesse existido um mal entendido entre ele e os familiares, pelo fato de ter ido embora. Por isso, ele exige notícias, de forma insistente.

 “Eu enviei seis cartas (?) tentarei obter uma permissão através do comandante consular e irei até você, para que possa entender que eu sou seu irmão (?) Eu pedi (?) nada para vocês pelo exército, mas eu os decepcionei porque, apesar de escrever a vocês, nenhum (?) tem consideração. Escutem, seu (?) próximo (?) sou seu irmão. Também vocês, respondam-me (?) escrevam-me. Qualquer um de vocês (?) , enviem o seu (?) para mim. Mandem saudações a meu pai Aphrodisios e meu (?) tio (?) Atesios (?) sua filha (?) seu marido e Orsinouphis e os filhos da irmã de sua mãe, Xenphon e Ouenophis, conhecido também como Protas (?) os Aurelios (?) a carta (?) ”

Papiro de tebtunis
O papiro, escrito em grego pelo soldado Aurelius, preserva e reporta para a modernidade uma curiosa mensagem antiga de angústia e saudosismo. Foto: Universidade da Califórnia. Biblioteca de Bancroft.

E para terminar, a saudação final:

“aos filhos e à Seinouphis, a padeira… de (?) Aurelius (?) Polion, da Legião II Adiutrix… da (?) Panônia Inferior (?) … Entregue a Acutius (?) Leon (?) , veterano da Legião… da parte de Aurelius Polion, soldado da Legião II Adiutrix, para que possa enviá-la à casa.”

É possível constatar que as emoções que um soldado da antiguidade poderia sentir não são diferentes das que se sente hoje em dia. É um problema moderno, e com muita probabilidade, é hoje enfrentado por muitos outros soldados, da mesma forma, com os mesmos desentendimentos familiares. Conforme disse Grant Adamson, “embora os soldados de hoje tenham maior facilidade para se comunicar e viajar de volta para casa, existem situações que ligam ambos, os antigos e os modernos soldados.”  E acrescenta que “alguns aspectos do serviço militar pertencem a uma experiência comun através das civilizaçõs antiga e moderna – em geral, parte na nossa real experiência humana. Algo como preocupação e saudade.”[7] Porém, não se poderá sentir igualmente o quanto poderia ser desesperadora a situação de Aurelius, pois trata-se de uma realidade já inexistente: não se comunicam mais as decisões por meio de cartas e respostas que durariam meses.

Até hoje não foi possível ter a certeza se Aurelius conseguiu a licença para voltar para casa, no entanto, sabe-se que a carta chegou ao seu destinatário no Egito.

Atualmente a carta se encontra na Biblioteca de Bancroft, na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Fonte de sites:

Fonte de livro:

Sites importantes:

 


[1] No momento em que os romanos construíam os Fortes em seus domínios, eles queriam estabelecer máxima proteção nas fronteiras. Sabe-se que tal Império se estendeu ao norte até a atual Bretanha, e que durante o governo do Imperador Adriano (117-138 d.C) – alguns anos depois em que foi escrito o convite– foi construída a maior estrututa de fortificação para proteger as dominações romanas nos territórios que hoje correspondem à fonteira entre a Inglaterra e a Escócia: como exemplo, a grande Muralha de Adriano (122- 126 d.C) – situada a dois quilômetros de distância do Forte de Vindolanda – obtinha ao longo de sua estrutura diversos Fortes. Devido à quantidade de soldados que trabalhavam neles, era preciso que outras pessoas estivessem em seu auxílio e que, portanto, provessem tudo, desde comida, até alojamentos limpos e bem conservados para esses soldados. Foi assim que nasceram, ao redor dos Fortes,  algumas vilas ou primeiras cidades.
[2] Político e militar romano, mentor na guerra de conquista da Bretanha, entre os anos 78 e 80 d.C, obtendo grande carreira militar e administrativa, também contribuindo para “romanização” daquela região.
[3] http://www.vindolanda.com/educate/history (Acessado em 17 de abril )
[4] Arqueólogos da Universidade de Oxford, importantes para a história da papirologia, pelas descobertas de vários papiros, escritos em grego e datados entre os séculos I e IV d.C.
[5] As Legiões romanas eram, portanto, unidades militares do exército romano, responsáveis pela seguraça territorial de tudo o que pertencesse à Roma.
[6] Legião militar romana de auxílio, fundada pelo Imperador Vespasiano, em 70 d.C. Seus soldados eram, originalmente, marinheiros da base naval Classis Ravennatis, grande frota naval do Império Romano. (Vários autores, 2015)
[7] http://www.livescience.com/43900-ancient-egyptian-soldier-letter-deciphered.html   (Acessado em 10 de Abril)
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