A água e a revolução da vida cotidiana na Roma antiga

 

“Os aquedutos iam para aonde Roma fosse.”[1]

 Os romanos foram marcados na história pelo seu grandioso ideal de conquista e expansão, afinal eram o povo mais ambicioso e diferenciador de seu tempo. Sua magnitude arquitetônica e geográfica nos dizem até hoje que limites não existiam para a civilização mais avançada do mundo. Para quem vivia no mundo antigo a influência de Roma era sentida em todas as esferas da vida: era o que dominava a paisagem, os costumes, a religião, o dia a dia de cada indivíduo então dominado aos poucos por esse grandioso povo. Desde o período Republicano até inícios do Império, as brisas da dominação romana já estavam enraizadas no estilo de vida visionário de seus engenheiros, generais ou governantes[2] como um todo: o diferencial em ser romano contava com a iniciativa inovadora de seus representates. Esse lado inovador já seria notado com a preocupação em como fazer prosperar ou desenvolver um povo, como fazê-lo ou torná-lo poderoso, pensando sempre em fatores indespensáveis: limpeza e qualidade de vida. Por que não?

Pois então, uma alternativa fabulosa para aqueles tempos (pensaram) seria o sábio e bom uso “de sua” água.  De todos os feitos inovadores, nenhum outro alterou tanto a vida cotidiana como a presença da água corrente.

Essa presença pode ser comprovado nos dias de hoje, por exemplo, quando se vai à Roma: a água está em todo os lugares, fontes grandes e pequenas, e em torneiras espalhadas pela cidade; encontra-se facilmente água potável pelas estradas, em meio às ruínas. Moradores e turistas não passam sede!

Na época dos antigos romanos, o saneamento básico não era de todo uma novidade absoluta, uma vez que tal processo já fora utilizado por outras civilizações séculos antes. A exemplo dos povos do Vale do Hindu, cerca de 3000 a.C, que criaram o primeiro sistema de irrigação e armazenamento da água[3].

Séculos se passaram e tornava-se maior a necessidade de que não faltasse água nos centros urbanos que se formavam aos poucos e que cresciam. Sendo assim, a maneira para provê-los com esse bem precioso foi a construção de um sistema mais eficaz de fluxo de água chamado aqueduto.  O abastecimento por via dos aquedutos foi aproveitado inicialmente pelos Mesopotâmicos (Assírios) que construíram o primeiro aqueduto da história (Jerwan), em 691 a.C, sendo seguidos pelos Gregos, cerca de 625 a.C (HELLER e PÁDUA, 2006).  De uma forma geral, os aquedutos são estruturas que sustentam o transporte de água, drenando-a desde a nascente –  em montanhas ou lugares com a geografia mais elevada- até os lugares em um nível mais baixo. Obviamente, os antigos observaram que era preciso que o terreno apresentasse esse declive, o que facilitaria a “queda” d’água. Essas estruturas, portanto,  mudaram para sempre seu modo de vida e ajudaram no desenvolvimento desses povos.

ROMA

Mais do que em qualquer outra civilização, em Roma os aquedutos ganharam mais força, seja pela sua influência social e política, seja pelo seu valor arquitetônico. Até hoje é possível admirar um pouco do esplendor de suas estruturas: eram não apenas construções subterrâneas como também elevadas- em forma de arcos- bastante conhecidas como aquilo que identifica a arquitetura da Roma antiga. O arco pode ser visto em muitas das ruínas de Roma e foi assim que os grandes aquedutos se apresentavam externamente.

A presença do arco se tratava de uma estratégia de maior sustentação para a parte externa dos aquedutos. Em poucas palavras, os romanos uniram o útil ao agradável. Para se obter um aqueduto com ângulo e queda satisfatórios, eles escavaram túneis em montanhas e, regularmente, mediram o declive da água para que esta chegasse nas cidades, fontes e casas com grande precisão. A cada 30 metros a declinação tornava-se maior. Quando o trajeto da água passava por vales, eram construídos grandes muros e, devido às grandes distâncias que se percorriam desde a fonte até as cidades – cerca de 60 quilômetros – entenderam que toda a muralha que sustentaria os túneis seria vasta e grandiosa: quer dizer que era preciso economizar o tempo e as pedras com a utilização dos arcos. Esse modelo de engenharia proporcionava grande resistência de forma que distribuía o peso ao longo de toda a construção.

Aqueduto romano
Ilustração de um modelo básico para um aqueduto romano. Como pode ser visto, os romanos perfuravam montes e, ao chegarem nos vales, mantiam  a angulação da estrutura, sustentando-a com a construção de muros em forma de arcos, de maneira a continuar o transporte da água. Foto: divulgação.
Muros de Sustentação
A ilustração nos dá uma ideia de como os romanos construíam seus aquedutos externamente. A construção dessas arcadas ajudava-os, também, a ganhar tempo. Foto: divulgação.
O arco.
Arco do Aqueduto Cláudio. Foto: © dayana mello

No século I da era cristã, Roma era a única superpotência europeia que possuía um grande sistema de distribuição de água, o que representou um diferencial diante de tudo o que já se conhecia. Apesar de outros povos muito antes já terem se conscientizado do uso sano da água, foi a civilização romana que “adotou” e organizou de maneira específica a condução estratégica de seu uso para diversos locais e objetivos, tudo muito padronizado. Ainda para se ter uma ideia, no ano 70 d.C, os romanos nomearam um superdintendente só para cuidar desse processo e que tudo fosse feito organizadamente, seu nome era Sexto Julio Frontino (40- 103 d.C).

Mais do que uma maravilha da engenharia romana, os aquedutos faziam parte do cotidiano da cidade. A água “jorrava” em jardins e vilas dos mais ricos ou palácios do Imperador, mas também era acessível ao cidadão comum.  Desde o mais básico abastecimento de água até a limpeza das casas, praças e fornecimento das fontes, termas e banhos, os aquedutos tornaram-se uma artimanha indispensável no sistema de drenagem da água: eram as artérias de Roma e assim célebres para a história dessa grande civilização. As palavras do naturalista Plínio, o velho (23-79d.C), que viveu na península itálica, reforçam esse importante impacto na engenharia:

Quem quiser considerar com atenção a quantidade das águas de uso público para as termas, as piscinas, as fontes, as casas, os jardins suburbanos, os sítios; a distância de onde vem a água, os condutores que foram construídos, os montes que foram perfurados, os vales que foram superados, deverá reconhecer que nunca existiu nada em todo o mundo de tão maravilhoso[4].

Em épocas do Imperador Ottaviano Augusto (27 a.C- 14 d.C), a água disponível era abundante e já sustentava uma população de quase 1 milhão de pessoas: sua diponibilidade para cada cidadão era o dobro de litros do que se tem hoje (D’ORAZIO, 2014). Isso se dava de maneira muito objetiva e organizada: ao sair dos aquedutos a água chegava em locais estratégicos como fontes públicas de água potável, banhos públicos, e outra parte era reservada e seguia diretamente para o Imperador. Não se pode esquecer de que havia também uma parcela de cidadãos – os Patrícios ou Aristocratas – que tinha acesso direto à água corrente, igualmente reservada a eles, pois podiam pagar por tal privilégio.

Basicamente, no início do Império cada casa podia ter acesso à água corrente e potável. Além disso, a água depois de utilizada era levada embora para os esgostos, evitando sujeira e qualquer contaminação e mantendo a cidade limpa. Assim sendo, não é difícil imaginar que os aquedutos ajudaram a “implantar” uma nova cultura urbana, baseada na limpeza, no conforto, na organização, lazer, ou até mesmo em uma declarada superioridade por parte dos próprios romanos.

DEMANDA DE ÁGUA E PRIMEIROS AQUEDUTOS

            O florescimento de uma civilização acontece graças a presença de nascentes ou fontes de água nas proximidades. A hidrografia de Roma foi sem dúvida essencial para o seu desenvolvimento. O rio Tibre (Tevere) fornecia grande parte da água de que os cidadãos precisavam, era a fonte inesgotável de Roma; outro importante rio era o Aniene[5], utilizado em menos proporção, mas não menos importante. Diante do crescimento demográfico– intensificado no século IV a.C – a demanda por água tornou-se proporcionalmente maior e a partir desse momento o primeiro aqueduto romano foi construído.

O Acqua Appia foi o primeiro aqueduto construído por volta do ano 312 a.C pelo nobre político Appio Claudio Cieco[6] (350 a.C- 271 a.C.), sendo quase completamente subterrâneo e com cerca de 17 quilômetros de extensão.  Em seguida, por volta do ano 270 a.C, foi realizado o segundo grande aqueduto romano, o Anio Vetus, com 63 quilômetros e cuja água provinha do Aniene, por isso seu nome “Aniene Velho”.[7] Mais tarde, outro aqueduto “adotaria” esse mesmo nome, o “Aniene Novo”.

O primeiro banho público e termas foram alimentados por um importante aqueduto, único que ainda hoje funciona: o Aqua Virgo ou Vergine, realizado pelo general e arquiteto Agrippa, foi inaugurado em 19 a.C e possui uma extensão de quase 20 quilômetros. Essa obra chegou preservada em nossos dias graças ao seu percurso subterrâneo, estando então protegido de possíveis ataques inimigos. Os registros da construção desse aqueduto nos contam que Agrippa ordenara que seus soldados encontrassem  uma nova fonte para sua edificação. Uma jovem aparecera aos soldados e lhes indicara o  local preciso. Para homenageá-la, Agrippa nomeou seu aqueduto de “Virgem”. No entanto, outra versão revela que o aqueduto obteve tal nome devido à leveza e pureza da água de sua fonte, livre de calcário. Atualmente, é possível explorar e admirar um dos percursos desse antigo aqueduto, ao contemplar as arcadas de mármore que se encontram nas proximidades da Fontana de Trevi. Outras fontes também são alimentadas por esse aqueduto: Fontana do Panteão e da praça Navona. Em todos os lugares de seu trajeto, “colhe-se claramente a maravilha de uma obra que funciona há mais de dois mil anos, sem a mínima intenção de parar” (D’ORAZIO, 2014).

Outros dois aquedutos foram de grande destaque de forma a contribuírem consideravelmente com o aumento do fluxo de água na cidade. Eles ganharam forma sob o governo do Imperador Cláudio (10 a.C- 54 d.C). O Aqua Claudia e o Anio Novus foram iniciados por Calígula (12- 41 d.C) no ano 38 da era cristã e inaugurados por Cláudio por volta do ano 52. O aqueduto Cláudio era grande cerca de 68 quilômetros e grande parte de seu percurso era praticamente o mesmo do Anio Novus, a ele anexado. Este último possuía 87 quilômetros, com fontes que se localizavam próximas ao vale do Aniene, e foi então chamado de “novo” em virtude do já existente Anio Vetus, construído séculos antes.

Por fim, outro memorável aqueduto é o Aqua Traiana, obra do Imperador Trajano (53-117 d.C), no ano 109 da era cristã, e que chegou a medir 32 quilômetros. Hoje, é possível reconhecer suas ruínas ao longo da via Aurelia Antiga, nas proximidades da Vila Panphilj.

Aqua traiana
Ao longo da Via Aurelia Antiga, encontra-se grande parte de um dos últimos aquedutos da Roma Antiga, o Aqua Traiana. Foto: © dayana mello

Esses aquedutos foram os de maior destaque e que, de certa forma, é possível hoje ver – e conviver com – suas velhas estruturas, seguir seus percursos  ou visitar as fontes por eles alimentadas.

No total, Roma edificou 11 conduções ou linhas de aqueduto que transportaram ao todo cerca de 8 milhões de litros de água por dia.

ATUALIDADE: PARCO DEGLI AQCUEDOTTI

O Parque dos Aquedutos é uma área arqueológica e naturalística de Roma, situado dentro do Parque Reginal da Appia Antiga. Apesar de muitos dos aquedutos terem sido construídos em lugares diferentes e distantes um do outro, é nesse parque que podemos encontrar as ruínas de pelo menos sete das onze dessas maravilhas da engenharia romana. É uma grande área verde com cerca de 240 hectares, entre a via Appia e a via Tuscolana, na qual se encontram outros edifícios de época romana e do renascimento.

 Os arcos maiores que se podem encontrar pertencem ao Aqua Claudia: grandiosas arcadas de até 28 metros de altura. Apresentam-se sempre imponentes e inesquecíveis para quem se aproxima de suas ruínas, em meio ao prado e ao absoluto silêncio de séculos…

Para quem se encontra em Roma e quiser conhecer esse maravilhoso parque, basta utilizar o Metrô linha A, através das estações Subaugusta, Lucio Sestio, Giulio Agricola. Tem-se acesso igualmente por meio da via Lemonia, Via Capannelle ou Viale Claudio. O itinerário turístico dos aquedutos dura cerca de 2 horas. É uma bela caminhada em um explêndido lugar!

Parco degli Acquedotti
O Parque dos Aquedutos: amplo território de lazer e de preservação da História.                   Foto: © dayana mello

FONTES  DE SITES:

FONTES DE LIVROS:

  • D’ORAZIO, Costantino. Le chiavi per aprire 99 luoghi segreti di Roma– Palombi Editori. 2014;
  • HELLER, Leo e PADUA, Valter Lucio- Abastecimento de água para o consumo humano. Editora UFMG, 2006;
  • HODGE, A. Trevor – Roman Aqueducts and Water Supply: Duckworth Archaeology. Paperback. 2002;
  • SMITH, Norman -The Roman Dams of Subiaco (1970), Technology and Culture. Disponível em: https://www.press.jhu.edu/journals/technology_and_culture/ (acessado em 23 de fevereiro);

[1] Hodge, A. Trevor-Roman Aqueducts and Water Supply (Duckworth Archaeology) Paperback: 2002;
[2]  Muitos edifícios e monumentos construídos em Roma, nem sempre foram iniciados a partir da ideia de seus governantes ou imperadores, mas também de alguns generais ou até mesmo arquitetos que eram o braço direito desses líderes. Como fora o caso do general militar e arquiteto Marco Agrippa(63-12 a.C)- responsável pela construção do Aqueduto Virgo e por idealizar o Panteão-, e o famoso arquiteto Apolodoro de Damasco(60-130 d.C) – também considerado responsàvel pelo início da construção do Panteão, e conhecido pelos seus trabalhos junto ao Imperador Trajano ;
[3] Os povos orientais, ao longo dos anos, utilizaram-se de reservatórios de terra e dessa forma captavam a água em subterrâneos, como os chineses e os egípcios que, há cerca de 4 mil anos, já adotavam a técnica de perfuração do solo para obter água. Os hebreus, 900 a.C, já possuíam cisternas e eram cientes dos cuidados com a água a ser consumida. Os babilônicos, cerca de 600 a.C, elevavam as águas dos seus rios para a irrigação dos jardins suspensos (HELLER e PÁDUA, 2006).
[4] “Chi vorrà considerare con attenzione la quantità delle acque di uso pubblico per le terme, le piscine, le fontane, le case, i giardini suburbani, le ville; la distanza da cui l’acqua viene, i condotti che sono stati costruiti, i monti che sono stati perforati, le valli che sono state superate, dovrà riconoscere che nulla in tutto il mondo è mai esistito di più meraviglioso”
[5] O Rio Aniene foi utilizado no desvio de água para a construção do grande lago artificial de Nero, em sua vila ou residência em Subiaco; suas águas também foram aproveitadas por pelo menos dois aquedutos – Anio Vetus (270 a.C) e Anio Novus (52 d.C) (SMITH, 1970).
[6] De origem Patrícia, da estirpe Claudiana, foi também responsável pela construção da importante estrada que levou seu nome, a Via Appia.
[7] http://www.romasegreta.it/rubriche/acquedotti.html  e http://www.romanoimpero.com/2009/10/acquedotti-romani.html  (acessados em 20 de fevereiro de 2017).
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