Excentricidade e tradição latina: la Befana

Natal, magos, reis, rituais, purificação, ocultismo, dons, paganismo…Talvez essas palavras não tenham muito sentido juntas, porém algumas delas têm um significado cultural lógico, uma vez reunidas em uma base antropológica cristã, ou no contexto do Natal. No entanto, para além dessa tradição natalina, conhecida como Epifania ou festa da visitação dos Reis Magos a Jesus, existe toda uma cultura antiga, advinda dos antigos cultos helenísticos[1], e que se propagou através dos antigos romanos e dos povos celtas, até os dias atuais. Ao longo dos séculos, essas “palavras” reuniram-se numa única celebração ou lenda e ganharam um forte sentido festivo e histórico, que se resumiu em Befana. Befana é celebrada hoje em toda Itália. Está intimamente ligada ao Natal e ao início do ano, assim como à propagação de dons e presentes para as crianças, quase como a tradição do Papai Noel.

Mas o que seria essa Befana?

Conta-se que uma pobre e solitária velha que viveu milênios atrás, sempre se ocupava dos afazeres domésticos e não realizava outro tipo de atividade a não ser aquela ligada ao cuidado e à limpeza de sua casa. Ela era sempre ocupada. Um dia, soube da presença de uns homens sábios no pequeno vilarejo onde morava, que procuravam ajuda para encontrar um lugar especial. Esses homens foram de casa em casa em busca de uma resposta, pois precisavam encontrar o lugar onde também se encontrava uma criança especial, um pequeno Rei. Por fim, os homens chegaram na casa daquela velha, que por sua vez não os pode atender, quão grande a quantidade de serviços que havia. Eles disseram a ela que deveriam achar o lugar onde estava um pequeno Rei e que gostariam de que os ajudasse, mas ela simplesmente negou. Aqueles homens sábios, mais tarde conhecidos como Reis Magos, seguiram viagem. A pobre velha, então muito arrependida, no dia seguinte resolveu ir atrás dos magos, com muita pressa, mas não obteve o êxito em encontrá-los. Dessa forma, a lenda ensina que todos os anos, na noite entre 5 e 6 de janeiro, a velha, montada em uma vassoura, voava e distribuía presentes a todas as crianças da região, pensando assim que alguma delas seria o tal pequeno Rei.

Befana e Magos
Pequena ilustração da lenda da Befana com os Magos. Foto: http://labefanafestas.blogspot.it

Com o passar dos séculos, a velha ficou conhecida como Befana, que deriva da palavra grega befanìa, termo oriundo de outra palavra mais conhecida, Epifania.

 Epifania significa manifestação, assim como sua origem grega em epifàneia – manifestação do divino, aparição. É, portanto, uma festa cristã celebrada doze dias depois do Natal e que está ligada à antiga tradição dos Reis Magos os quais reconheceram a divindade de Jesus, exaltando-o  com os famosos presentes: ouro, incenso e mirra.

ORIGEM E TRADIÇÃO

Conforme a lenda, a Befana está em uma busca eterna pelo menino Jesus. Sempre consigo traz dons, para presentear as boas crianças, e carvão, para as que fossem malvadas durante o ano. Os dons seriam bondade, alegria, inteligência e também materiais, como brinquedos, livros, doces. Por isso, toda noite de 5 de janeiro, as crianças deixam meias penduradas nas janelas ou chaminés para que na manhã seguinte lá encontrem depositados seus presentes. O dia de Reis ou da Epifania – 6 de janeiro- dessa maneira, possui um significado a mais para certas regiões do mundo[2] , sobretudo para a península itálica. É, portanto, um paralelo com a festa natalina e a figura do velho Noel e sua tradição “americana”. Contudo, muito ao contrário do bom velhinho, a Befana é uma uma figura um tanto grotesca, com uma aparência bruta, como as tão conhecidas e lendárias bruxas: sujas, cabelos maltratados, roupas velhas, e que voam com suas vassouras, carregando sempre um pouco de carvão para as crianças malvadas, tratando-se de uma alusão ao seu triste destino ao ter negado a manifestação de Jesus através dos homens sábios. Ao mesmo tempo, é uma personagem querida pelos presentes que traz consigo: não é essencialmente maldosa, pois também reconheceu que errou e se arrependeu. Sua figura, então, possui uma áurea mística entre a paz, a alegria e o aterrorizante .

“A vassoura de La Befana é mais do que apenas o transporte prático – ela também vai arrumar uma casa bagunçada e varrer o chão antes que ela parta para sua próxima parada. Esta é provavelmente uma coisa boa, uma vez que Befana deixa um pouco de fuligem ao descer chaminés, e é apenas educada para limpar depois de sujar. Ela pode encerrar sua visita, entregando-se ao copo de vinho ou prato de comida deixados pelos pais como agradecimento” (http://www.desocultando.com.br/lenda-de-la-befana/)

           A representação folclórica da Befana provém da passagem do antigo para o novo: é uma velha, como o ano velho que se findou, a trazer os dons, a novidade para o ano que se inicia. Fazendo um paralelo com a mitologia romana, a Befana é associada à deusa Diana, deusa lunar, não só ligada à caça, como também à vegetação, ao fecundo, ao novo. Sua origem remete a períodos entre os séculos X e VI a.C, aproximadamente, quando os ritos (ditos) pagãos eram sempre conectados com a vegetação, a agricultura, a natureza. Era fortemente relevante a observação dos ciclos de cada estação, para que a boa colheita renascesse juntamente com o novo ano. Cultuava-se, portanto, a fecundidade, por povos como os celtas – através da purificação em estranhos ritos, cujo objetivo era queimar animais e prisioneiros de guerra[3]– e pelos antigos adoradores do Mitraismo e Zoroastrismo[4], os quais acreditavam que trabalho e valorização do ambiente eram extremamente importantes. A natureza deveria ser bem observada e preservada enquanto ponto central para o desenvolvimento de suas práticas[5].

A figura da Befana assume, então, um importante papel como referência entre céu e terra, para essas culturas pagãs e pré-cristãs, e “invade” aos poucos os festejos religiosos, sempre ligados à força da natureza. Foram os antigos romanos que amalgamaram esses festejos ao seu calendário em que durante “a décima segunda noite depois do solstício de inverno, celebrava-se a morte e o renascimento através da mãe natureza”[6] .

 A partir da baixa Idade Média, a Igreja de Roma condena ritos de natureza pagã, definindo-os como de origem satânica, e a Befana seria então personificada na figura da bruxa com sua vassoura e todo aspecto negativo a ela (injustamente) associado. A antiga figura feminina pagã, como a bruxa, foi (depois de muito tempo) tolerada pela cristandade, mas sempre possuiu o dualismo de bem e mal, como aparentemente está representado na figura da Befana.

Na realidade, como já se sabe, a lenda da Befana não se trata da história de uma velha maldosa, mas sim afetuosa, que traz a vassoura como símbolo de limpeza e purificação.

A Befana
Representação tradicional da Befana. Foto: divulgação.

Somente em meados do século XX, as festividades da Befana foram introduzidas oficialmente pelo regime facista. A festa, contudo, continua atualmente e é permeada por diversas representações da pobre velhinha e de presépios vivos.

FESTA MODERNA

Tradicionalmente, a praça Navona e a Via della Conciliazione são os locais dos festejos oficiais da Befana, em Roma. Todo dia 6 de janeiro, desde a manhã, são realizados cortejos com pessoas fantasiadas: a concentração maior está na praça Navona, onde são construídos os mercadinhos de Natal, além de grupos de artes de estradas que animam a festa com as crianças, afinal, é o dia da Befana! O cortejo também ocorre num trajeto da via principal que liga o Castelo de Sant’Angelo até a praça São Pedro. Enfim, esse é sempre um dia muito esperado pelas crianças italianas. Uma curiosa e rica celebração latina.

SITES IMPORTANTES:


[1] Tratam-se da mescla cultural e da adaptação da religião grega às divindades e religiões do Oriente e do Egito. Portanto, os cultos helenísticos significam a importação de vários cultos e o nascimento ou ascenção do misticismo.

[2] Além da Itália o culto da Befana existe em outras partes do mundo: da Persia à Normandia, da Russia à Africa do Norte, mas sempre ela é vista como uma figura boa e generosa.

[3] http://www.settemuse.it/costume/costume_befana.htm

[4] Antigas religiões orientais (civilização Persa), adaptadas pela cultura helenínisca.

[5] http://jewishencyclopedia.com/articles/15283-zoroastrianism

[6] http://www.romanoimpero.com/

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